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Caroline Goldman: a psicóloga infantil francesa contra a parentalidade positiva e a favor do tempo fora

Mulher sentada no chão a interagir com criança que segura um ursinho de peluche numa sala iluminada.

A psicóloga infantil francesa Caroline Goldman tornou-se um ponto de inflamação nessa tensão: desafia os dogmas da “parentalidade positiva” e, ao mesmo tempo, defende o equilíbrio emocional das crianças com um método surpreendentemente frontal, quase à moda antiga.

A psicóloga que questiona a “parentalidade perfeita”

Em França, Caroline Goldman saiu do recato do consultório para as manchetes. A forma incisiva como critica certas correntes da parentalidade positiva transformou-a numa figura pública; ainda assim, o foco que a move mantém-se inalterado: apoiar crianças em sofrimento e pais que já não sabem como agir.

Goldman cresceu num ambiente marcado pela psicanálise. A avó voltou à universidade aos 67 anos para estudar Psicologia. A mãe seguiu o mesmo caminho e tornou-se psicóloga infantil. Em casa, falar de Freud, Winnicott e da infância não era um exercício académico: era o pano de fundo permanente das conversas. Esse contexto ajuda a explicar o combate que trava hoje - contra modas que, na sua leitura, fragilizam as crianças em vez de as tornar mais fortes.

Goldman defende que o equilíbrio emocional de uma criança depende menos de validação constante e mais de adultos firmes e afectuosos, capazes de impor limites.

Para ela, a terapia raramente passa por trabalhar apenas com a criança. Vê os pais como os verdadeiros “agentes de mudança” e procura tratá-los não como culpados a humilhar, mas como aliados a capacitar.

Quando a “parentalidade positiva” alimenta ansiedade e caos

A nova vaga de problemas de comportamento

Goldman descreve uma mudança marcante na última década. No seu consultório, observa um aumento de crianças rodeadas por pais dedicados, em segurança física e com conforto material, mas com dificuldades comportamentais intensas:

  • desafio crónico às regras
  • reacções explosivas a frustrações pequenas
  • provocação e agressividade verbal em casa e na escola
  • agitação que compromete a atenção e a aprendizagem
  • rejeição social por colegas e professores

No passado, padrões assim eram frequentemente associados a trauma, negligência ou conflito familiar grave. Hoje, diz encontrar crianças que “têm tudo para ser felizes”, mas que vivem num estado permanente de alerta, hiper-reactividade e insegurança.

Na sua perspectiva, muitas destas crianças não estão oprimidas por disciplina dura. Estão à deriva porque ninguém parece claramente mais forte do que elas.

Goldman liga parte desta viragem a uma versão francesa da “educação positiva” que leva os pais a evitarem exercer autoridade. Alguns guias insinuam que a frustração pode causar “danos cerebrais irreversíveis” ou que qualquer afastamento, mesmo breve, é violência. O efeito, argumenta, é uma geração de pais paralisados pela culpa e pelo medo.

Quando a criança sente que ninguém a pode proteger

Crianças educadas nesse enquadramento, afirma Goldman, tendem a manifestar um terror de fundo que vai além de uma simples birra. Entram em pânico com a hipótese de os pais saírem à noite. Fixam-se em cenários catastróficos: colapso climático, assaltos, morte súbita, acidentes. A hora de deitar transforma-se num drama repetido.

O fio condutor destas angústias é a sensação de que ninguém está claramente “ao comando”. Quando os adultos hesitam, negoceiam sem fim ou recuam perante qualquer confronto, a criança conclui que o mundo não tem um protector fiável. A autoridade, longe de ameaçar o seu equilíbrio, torna-se um dos seus pilares.

Para Goldman, isto não é uma defesa de disciplina rígida ou humilhante. É um apelo à clareza. As crianças precisam de saber quem decide a hora de dormir, quem garante a segurança no parque infantil, quem diz “não” quando pedem uma terceira sobremesa ou se recusam a fazer os trabalhos de casa. Sem essa estrutura, a ansiedade ocupa o espaço vazio.

O controverso “tempo fora”: castigo ou protecção?

Como Goldman usa o tempo fora

O foco da tempestade mediática em torno de Goldman tem sido a sua defesa do método do “tempo fora”: encaminhar a criança para o quarto ou para um local calmo durante uma crise, até recuperar a serenidade. Para alguns defensores da parentalidade positiva, isto parece abandono emocional. Para Goldman, quando aplicado com critério, funciona como uma válvula de segurança.

A sua prática assenta em regras claras. Não recomenda o “tempo fora” a crianças com depressão clínica ou psicose, nem em situações de insegurança profunda de vinculação. Aplica-o a crianças que, fora desses episódios, estão bem, mas entram em espirais de raiva, agressividade ou provocação. Nesses momentos, identifica três objectivos:

Objectivo O que a criança aprende
Travar a escalada O comportamento violento leva a uma pausa, não a uma luta de poder.
Auto-regulação É possível acalmar longe de estímulos e discussões.
Enquadramento claro Os pais são figuras de autoridade calmas e previsíveis, não inimigos.

Goldman entende o “tempo fora” menos como castigo e mais como uma forma de impedir que a relação se envenene com combate verbal constante.

Insiste que o contexto é decisivo. Se um pai ou mãe recorre ao “tempo fora” em fúria, a gritar e a envergonhar, o método transforma-se noutra coisa. Se for usado de forma consistente, com explicação prévia e reconexão depois, ela considera que pode diminuir explosões violentas e, indirectamente, reduzir o risco de castigo físico.

Onde deve estar a linha

Goldman dedica também muito tempo ao tema do diagnóstico errado. Uma criança que se isola, se retrai ou mostra humor plano não precisa de “tempo fora”; precisa de presença e de avaliação cuidadosa. Uma criança com perturbações do desenvolvimento ou psiquiátricas pode interpretar a exclusão como prova de que é “demasiado” ou “avariada”.

Na prática, sugere que os pais se coloquem algumas perguntas rápidas antes de afastarem a criança:

  • Fora destas crises, o meu filho costuma ser alegre e ligado a nós?
  • Estou a responder a um padrão de desafio ou ao meu próprio cansaço?
  • Consigo explicar com calma o que vai acontecer e porquê?
  • Estou preparado para me reaproximar depois, sem ressentimento?

Se a resposta for “não” à maioria, aconselha procurar ajuda profissional em vez de improvisar estratégias disciplinares com base em conselhos das redes sociais.

Pais como parceiros, não como vilões

Sessões de três horas e um olhar sobre a família

O método clínico de Goldman contraria a tendência actual de consultas ultracurtas, ao estilo de “aconselhamento rápido”. Começa com uma sessão longa, de três horas, envolvendo a criança e, sempre que possível, ambos os pais. Nesse tempo, reconstitui a história da criança, os laços familiares, a vida escolar e as rotinas do dia-a-dia.

Deixa a criança falar, desenhar e brincar, enquanto observa como os adultos intervêm: como confortam, impõem limites ou evitam o conflito. No final, apresenta um diagnóstico de trabalho, hipóteses sobre as raízes do problema e orientações concretas para os pais.

A premissa central é simples: raramente se “trata” a criança de forma directa. Ajusta-se o sistema à volta dela. Os pais tornam-se:

  • fontes de afecto para a criança triste ou retraída
  • guias estruturantes para a criança que testa regras sem parar
  • figuras de reparação para quem tem a auto-estima ferida
  • “âncoras” claras para crianças que se sentem perdidas nos papéis ou na história familiar

Goldman rejeita a caricatura da psicanálise como uma máquina de culpabilizar mães. Para ela, os pais são as principais ferramentas de reparação, não o principal problema.

Acredita ainda que o alívio surge muitas vezes quando a culpa deixa de ser difusa e se torna concreta. Muitos pais chegam com a sensação vaga de que “estragaram” o filho. Quando ela aponta períodos específicos ou padrões que podem ter pesado na criança, eles tendem a acenar em concordância, mais do que a contestar. Já o intuíram. E ouvir que agora podem fazer algo a respeito costuma aliviar o peso emocional.

A competência em falta: como os terapeutas falam com os pais

Por trás da sua crítica à parentalidade positiva, Goldman deixa também uma crítica à própria área. Defende que a psicanálise formou gerações de terapeutas para interpretar, mas raramente para comunicar essas interpretações com tacto. A forma como o feedback é dado tanto pode esmagar um pai ou uma mãe como pode mobilizá-los.

Diz que procura usar um vocabulário caloroso e directo, evitando sempre a acusação. Pode dizer, por exemplo: “Fez o melhor que conseguiu num período difícil, e está aqui hoje para fazer ainda melhor. Isso já a coloca na categoria de pais muito bons.” A intenção não é apagar a responsabilidade, mas convertê-la em energia para a mudança.

O que esta abordagem significa para os pais de hoje

As ideias de Goldman caem num cenário em que muitos pais se sentem julgados por todos os lados: ser meigo mas firme, emocionalmente presente mas nunca intrusivo, impor limites mas nunca dizer “porque eu disse”. A sua posição corta parte desse ruído com alguns pilares pouco delicados: as crianças precisam de amor, estrutura e adultos que não desabam ao primeiro protesto.

Para famílias fora de França, o debate soa familiar. Pais nos EUA e no Reino Unido também navegam um dilúvio de conselhos que pode transformar a frustração normal numa emergência psicológica. O trabalho de Goldman propõe outro filtro: perguntar se um método favorece resiliência a longo prazo, e não apenas calma imediata.

Uma forma prática de testar isto é observar o que acontece ao longo de semanas, não de horas. Se uma técnica deixa a criança mais ansiosa, mais exigente e menos capaz de lidar com um “não”, pode estar a aliviar a culpa sem fortalecer a criança. Se, com o tempo, a criança aceita limites com mais facilidade, recupera mais depressa das desilusões e se sente mais segura a separar-se na escola ou à hora de dormir, então o seu equilíbrio interno pode estar a ganhar consistência.

A insistência em envolver redes mais amplas abre também um caminho para famílias que se sentem muito sozinhas. Ela chama frequentemente avós, padrinhos, vizinhos - qualquer adulto capaz de oferecer estabilidade. Isso ecoa o que a psicologia do desenvolvimento tem mostrado: a resiliência de uma criança apoia-se muitas vezes num pequeno núcleo de adultos fiáveis, e não numa parentalidade impecável exercida por uma só pessoa.

Para pais encurralados entre conselhos perfeitos para Instagram e a verdade desarrumada de viver com crianças reais, a mensagem de Goldman é desconfortável, mas curiosamente tranquilizadora: vai errar, vai levantar a voz às vezes, e o seu filho continuará bem se se mantiver consistentemente cuidador, razoavelmente firme e disponível para ajustar. O equilíbrio emocional cresce nesse espaço imperfeito e muito humano.


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