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Elogios sem constrangimento: como dar e receber melhor

Jovem mulher e homem sentados frente a frente num café, sorrindo com mãos no peito, com bebidas e livro à frente.

“Pareces… diferente.”

A colega do outro lado da mesa sorri, está bem-intencionada, e mesmo assim a frase fica suspensa no ar entre vocês, pesada como uma toalha húmida. Puxas a camisola, ris-te alto demais e devolves um “Obrigado?” com um ponto de interrogação a subir no fim. Nos dez minutos seguintes, a reunião passa-te ao lado. Ficas a rebobinar aquelas palavras e a tentar traduzi-las: era um diferente bom, um diferente mau, ou apenas conversa de circunstância?

Em teoria, os elogios deviam ser simples: doces, agradáveis, lisonjeiros. Na prática, muitos caem tortos - deixam uma pessoa sem jeito e a outra a arrepender-se por dentro.

Porque é que uma coisa tão simpática pode saber tão esquisito?

Porque é que alguns elogios nos dão vontade de desaparecer

Há uma tensão estranha sempre que alguém nos elogia. Por um lado, queremos ser vistos. Por outro, ser vistos com demasiada nitidez pode parecer estar sob aquela luz impiedosa da casa de banho. Um elogio aponta um holofote para nós - e nem toda a gente gosta desse foco.

Às vezes, as palavras não encaixam no momento. Estás exausto, com o cabelo por lavar, e alguém manda: “Estás incrível.” O teu cérebro não aceita a informação. O elogio ricocheteia.

Então sorris, dizes obrigado, e sentes-te estranhamente sozinho dentro daquela frase pequena e gentil.

Pensa no clássico “Emagreceste!” dito como se fosse um mimo social lançado ao ar. Para muita gente, porém, aterra com estrondo. Pode puxar à memória dietas, doença, stress, ou uma fase em que se sentiam menos dignos.

Ou imagina um gestor a dizer a um colaborador: “És brilhante, mesmo brilhante.” Sem exemplo, sem contexto, sem detalhe. A pessoa acena, mas mais tarde fica a pensar se não foi apenas lisonja genérica - nada de concreto a que se possa agarrar.

Elogios destes não são maldosos. São apenas vagos, carregados de subtexto, ou apontados ao alvo errado. E o elogio vago, mesmo quando é bem-intencionado, pode soar oco.

A psicologia aqui é relativamente directa: o cérebro confia mais em detalhes concretos do que em rótulos grandes e brilhantes. “És tão talentoso” sabe bem, mas não diz ao certo o que fizeste bem. Já “A forma como dividiste aquele problema confuso em três passos claros ajudou mesmo a equipa” chega de outra maneira.

Além disso, muitos elogios trazem escondido um julgamento sobre um “antes” nosso. “Agora estás muito mais confiante” pode ser ouvido como: “Uau, antes eras um desastre.” O nosso sistema nervoso apanha depressa esse subtexto.

Quando um elogio toca, sem querer, na vergonha, deixa de parecer um presente e passa a soar como um teste.

Como fazer elogios que soam a verdadeira ligação

Há um ajuste simples que muda quase tudo: elogiar o que as pessoas fazem, e não aquilo que “são”. Dá prioridade a acções, esforço e escolhas - não a traços fixos nem ao corpo. “Adorei a forma como ouviste toda a gente antes de partilhares a tua ideia” soa sólido e credível.

Mantém o elogio pequeno e específico. Identifica o momento, o comportamento e o efeito que teve em ti. Assim, a outra pessoa recebe algo claro, que consegue reconhecer em si.

Não precisas de lirismo. Precisas de clareza, calor e uma frase honesta que só podia ser dita àquela pessoa, naquele instante.

Uma armadilha comum é exagerar por insegurança. Sentes-te um bocado desconfortável e começas a empilhar palavras: “És incrível, a sério, tipo a melhor de sempre, estou obcecado.” De repente, soa mais a voz de trailer do que a um ser humano.

Ou então vais logo ao aspecto físico porque é fácil. “Giro, esse shirt.” “Estás com bom ar.” Não há mal nenhum nisso; o problema é quando essa é toda a tua linguagem de elogio - aí tudo começa a saber a pouco.

Sejamos honestos: ninguém acerta nisto todos os dias. A maioria de nós vai improvisando nas interacções sociais e a torcer para que corra bem.

Às vezes, o elogio mais forte é o discreto e específico, que não tenta arranjar nada: “Quando apareceste mesmo estando cansado, significou muito para mim.”

  • Troca o julgamento pela observação
    Em vez de “És perfeito”, experimenta “Reparei no cuidado com que…”
  • Apoia-te no comportamento, não no corpo
    Passa de “Estás tão magro” para “Notas-te com mais energia depois das caminhadas.”
  • Liga-o ao impacto
    Acrescenta “Isso ajudou-me porque…” ou “Isso fez a sala sentir…”
  • Mantém curto e respirável
    Uma ou duas frases calmas resultam melhor do que um monólogo apressado.
  • Ajusta ao nível de conforto da pessoa
    Há quem adore elogios grandes; há quem prefira um simples e discreto “Isso foi mesmo útil.”

Aprender a receber - e a dar - elogios sem encolher

Existe também o outro lado: aceitar um elogio sem nos diminuirmos nem o afastarmos com a mão. Muitos de nós foram ensinados a responder com “Não foi nada” ou “Qual quê, tive foi sorte.” Parece educação, mas acaba por desvalorizar, em silêncio, quem elogiou.

E se praticasses uma resposta limpa: “Obrigado, isso significa muito,” e depois uma pequena pausa? Sem auto-depreciação, sem devolver imediatamente um elogio por obrigação. Só um instante mínimo de realidade partilhada.

Os elogios deixam de ser tão embaraçosos quando ambos os lados os deixam ser simples: uma pessoa nomeia algo bom, a outra deixa que aquilo assente.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Foca-te no específico Descreve a acção ou o momento que apreciaste, em vez de um traço vago Faz com que os teus elogios pareçam credíveis e sinceros
Evita temas carregados Tem cuidado com comentários sobre peso, idade, dinheiro ou mudanças “antes vs. depois” Reduz o risco de tocar em vergonha escondida ou em histórias sensíveis
Treina a recepção Usa um simples “Obrigado” e resiste ao impulso de te desvalorizares Fortalece o auto-respeito e aprofunda a ligação com quem elogia

Perguntas frequentes:

  • Pergunta 1 Porque é que me sinto desconfortável quando alguém me faz um elogio?
  • Pergunta 2 Qual é um elogio seguro para alguém que não conheço bem?
  • Pergunta 3 Como posso elogiar um colega sem parecer falso?
  • Pergunta 4 É aceitável elogiar o corpo de alguém ou a perda de peso?
  • Pergunta 5 Como deixo de desviar elogios e passo simplesmente a aceitá-los?

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