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Ranking da OCDE: a França e os países mais escolarizados no mundo

Homem surpreendido analisa gráfico colorido em reunião com grupo e Torre Eiffel ao fundo.

Num jantar, num escritório em espaço aberto ou debaixo de uma publicação no X demasiado confiante, alguém atira: «A França, ainda assim, está no topo». Depois, outra pessoa pega no telemóvel, pesquisa “países mais escolarizados do mundo” e, de repente, instala-se um silêncio à volta da mesa. Porque a lista que aparece no ecrã não corresponde bem ao imaginário coletivo.

Em poucos números surge uma realidade seca: Canadá, Japão, Coreia do Sul, países nórdicos… e até pequenos Estados que muita gente hesita em localizar num mapa. A França, pelo contrário, aparece mais abaixo - ultrapassada por um conjunto surpreendente de países. O olhar muda: um pouco picado, um pouco intrigado. A pergunta impõe-se: quando é que a distância se abriu e, acima de tudo, o que é que isto diz realmente sobre nós?

França vs o mundo: um ranking que custa

Os dados mais recentes da OCDE não fazem alarido. Limitam-se a alinhar países, um após outro, de acordo com a percentagem de adultos com ensino superior. No topo, surgem os nomes habituais: o Canadá, com mais de 60% dos adultos com um diploma de ensino terciário. Coreia do Sul, Japão, Reino Unido, Estados Unidos. E aparecem também países que subiram depressa, como a Irlanda e a Austrália. Mais abaixo na tabela, a França surge com um resultado bem menos lisonjeiro.

Para um país que gosta de se ver como a terra das escolas, dos livros e dos grandes debates intelectuais, a diferença sabe a choque. A França não é, de forma nenhuma, um deserto educativo. Mas, em termos relativos e neste indicador específico, fica atrás de uma longa lista de nações que, discretamente, transformaram a educação numa obsessão estratégica de longo prazo. O que magoa, acima de tudo, é ver cair uma narrativa profundamente enraizada.

Basta olhar para o Canadá, a estrela do momento nestes rankings. Em Toronto ou Vancouver, é quase banal encontrar um barista com licenciatura, um taxista com diploma em engenharia ou imigrantes a reconverter-se através de cursos pós-laborais. Em Seul, muitos pais combinam dias de trabalho longos com noites em hagwons - academias privadas onde as crianças acumulam horas extra de matemática ou inglês. Já na Finlândia, o prestígio de ser professor rivaliza com o de ser médico, advogado ou jurista.

São modelos muito diferentes - por vezes, até culturas quase opostas - mas convergem num ponto: empurram a maioria da população a permanecer mais tempo a estudar, ou a regressar ao sistema mais tarde. A França, com as suas grandes écoles altamente seletivas e um mercado de trabalho mais rígido, produz excelência no topo, mas deixa uma fatia grande da população sair mais cedo. É como ter alguns craques em campo e manter metade da equipa no banco.

Por trás do ranking bruto estão escolhas estruturais. Muitos dos países “mais escolarizados” investiram de forma massiva para tornar a universidade ou a formação profissional simultaneamente acessível e atrativa. Criaram pontes para que adultos regressem ao ensino aos 30, 40 e até 50 anos. E garantiram que um diploma - ou, pelo menos, competências certificadas - se traduz mesmo em salários melhores e maior segurança no emprego, de forma visível.

Em comparação, a França continua presa a um reflexo antigo: a ideia de que a decisão escolar decisiva acontece aos 17 ou 18 anos, quando se escolhe um percurso supostamente definidor para toda a vida. Depois de sair, voltar é possível - mas parece um labirinto. As estatísticas refletem essa rigidez. Enquanto outros países fizeram da educação uma escada rolante ao longo da vida, a França mantém-na mais parecida com um exame de uma só tentativa, que se aprova ou reprova “na idade certa”.

O que os países no topo fazem de forma diferente - e o que a França podia copiar

Quando se observa quem lidera o ranking, há um padrão evidente: tratam a educação como um ecossistema, e não como uma instituição isolada. Existe a escola, claro, mas também formação de adultos, cursos online pagos pelas empresas, microcredenciais, bibliotecas públicas com atividade à noite, community colleges. No Canadá ou nos países nórdicos, é quase trivial ouvir alguém com 35 anos dizer: «Vou voltar a estudar durante um ano». Sem drama, sem estigma.

Uma alavanca prática que a França podia importar é uma verdadeira infraestrutura de “segunda oportunidade”. Por exemplo: graus a tempo parcial, programas curtos e orientados para o emprego que não obrigam a parar de trabalhar, ou créditos acumuláveis ao longo de dez anos em vez de concentrados num único ciclo. Não são reformas vistosas. Ainda assim, empurram os números para cima de forma silenciosa: mais pessoas com competências validadas, mais gente a entrar nas estatísticas destes rankings e mais capacidade para mudar de rumo quando o mercado de trabalho mexe.

Em muitas famílias francesas, a escola continua a ser vivida como uma máquina de triagem. Se és “bom aluno”, sobes. Se não és, sais cedo - muitas vezes com vergonha a acompanhar. Os países que ultrapassam a França fizeram algo subtil: separaram a autoestima do desempenho escolar precoce. Na Dinamarca ou na Nova Zelândia, mudar de percurso aos 25 ou 30 anos não soa a confissão de fracasso; soa a vida normal.

Essa camada cultural pesa nas estatísticas. Onde abandonar a universidade é visto como uma catástrofe, menos pessoas arriscam inscrever-se logo à partida. Onde as vias profissionais são tratadas como segunda divisão, muitos estudantes evitam-nas e acabam com qualificações desalinhadas do trabalho real. Ter mais diplomas não significa automaticamente melhor educação, mas significa mais portas abertas para mais pessoas. E os rankings tendem a seguir essa lógica simples.

«Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.» Foi o que me disse, com um meio sorriso, uma diretora de Recursos Humanos francesa, ao falar de programas de aprendizagem ao longo da vida na sua empresa. Oficialmente, os folhetos são impecáveis, o catálogo é vasto, tudo é digital e flexível. Na prática, muitos trabalhadores continuam a encarar a formação como um fardo: algo que se faz quando é obrigatório ou quando o emprego está em risco.

“Os países que lideram os rankings de educação não são necessariamente os que têm os alunos mais brilhantes aos 18 anos”, explica um analista da OCDE. “São os que mantêm as pessoas a aprender aos 28, 38, 48.”

Esta citação resume o que tantas vezes falha no debate nacional. Não se trata apenas de reformar o ensino secundário ou de acrescentar matemática no currículo. Trata-se de quão simples é, na prática, voltar a aprender quando a vida já começou. Há algumas medidas que fazem uma diferença enorme:

  • Programas de educação de adultos gratuitos ou de baixo custo, com horários à noite e ao fim de semana
  • Procedimentos online simples para reconhecer oficialmente experiência anterior
  • Empregadores que garantem tempo e orçamento reais para formação - e não apenas palavras de ordem
  • Polos e campus locais fora das grandes cidades, para que aprender não implique mudar de vida e de morada
  • Aumentos salariais claros associados a novas certificações ou diplomas

Para lá dos rankings: o que isto revela sobre o nosso futuro

Há algo quase infantil na forma como reagimos a rankings internacionais. Adoramo-los quando estamos em primeiro; quando descemos, discutimos a metodologia. Ainda assim, por trás daqueles gráficos está uma questão bem adulta: que tipo de sociedade queremos daqui a vinte ou trinta anos? Um país com uma elite estreita e hiperqualificada, ou uma base larga de cidadãos que se sintam capazes de aprender, mudar e atualizar competências?

O facto de a França ser ultrapassada por tantas nações não quer dizer que as escolas estejam a ruir ou que os professores estejam a falhar. Significa que outras sociedades avançaram mais depressa - ou de outra maneira - num ponto específico: transformar a educação num recurso renovável, e não numa oportunidade única. Num mundo em que as profissões são reconfiguradas a cada cinco anos, essa diferença contará cada vez mais, não só nos relatórios do PIB, mas também na segurança e na dignidade do quotidiano.

O ranking é um espelho, não uma sentença. Mostra hábitos, medos, orgulho e pontos cegos. E força perguntas desconfortáveis: porque é tão difícil regressar aos estudos aos 40 anos em França? Porque é que certos diplomas ainda abrem ou fecham carreiras inteiras? Porque é que um percurso académico “falhado” marca alguém durante tanto tempo? Partilhar estas questões, discuti-las à mesa do jantar ou no trabalho, já é um primeiro passo. O seguinte é mais silencioso: uma decisão coletiva de fazer com que aprender pareça menos um teste… e mais um direito que se pode recuperar em qualquer idade.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A França está a descer nos rankings de educação Muitos países ultrapassam hoje a França na percentagem de adultos com ensino superior Ajuda a perceber porque é que a narrativa nacional colide com os dados internacionais
A aprendizagem ao longo da vida é o verdadeiro fator decisivo Os países no topo apostam em educação de adultos, reconversão e percursos flexíveis de estudo Dá pistas para escolhas pessoais e políticas sobre formação contínua
As perceções culturais moldam as estatísticas O estigma de mudar de rumo ou de voltar a estudar mantém os números mais baixos Convida a repensar a própria ideia de “sucesso” e “fracasso” na educação

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Que país tem atualmente a população mais escolarizada? Dados recentes da OCDE colocam normalmente o Canadá no topo ou muito perto dele, com mais de seis em cada dez adultos com uma qualificação de ensino terciário.
  • A França está mesmo assim tão mal na educação? Não em termos absolutos: a França tem boas escolas e universidades, mas em rankings relativos baseados na conclusão do ensino superior, muitos países apresentam hoje melhores resultados.
  • Estes rankings medem a qualidade da educação? Não. Contam sobretudo quantos adultos atingiram um certo nível de escolaridade. A qualidade do ensino, a desigualdade e as competências reais só são captadas parcialmente.
  • Porque é que os países nórdicos aparecem tantas vezes no topo? Porque combinam educação gratuita ou acessível, forte apoio social e uma cultura que valoriza professores e a aprendizagem ao longo da vida.
  • O que pode fazer uma pessoa perante estes rankings? Para lá do debate nacional, pode explorar educação de adultos, cursos online ou mecanismos de reconhecimento de competências adquiridas, para manter as suas próprias capacidades em evolução.

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