A apenas uma curta viagem de carro a partir de Roma, encontra-se uma paisagem onde o chão parece fumegar, a água borbulha em pequenas poças e a floresta termina de repente numa clareira crateriforme de tons cinzento-esbranquiçados.
Quem chega aqui pela primeira vez tende a duvidar do que está a ver: em vez de pinheiros, ruínas e ambiente mediterrânico, o cenário lembra subitamente latitudes do Norte. Lama acinzentada, terra clara, cavidades húmidas a libertar vapor - e, à volta, um anel de bétulas esguias. A Caldara di Manziana, a pouco menos de 50 km de Roma, oferece um quadro que parece mais adequado à Islândia ou a Yellowstone do que às colinas do Lácio.
Um pedaço de terreno vulcânico junto a Roma: onde o solo “ferve a frio”
A Caldara di Manziana é um monumento natural protegido com cerca de 90 hectares, integrado no Parque Regional Bracciano-Martignano. Do ponto de vista geológico, a sua história recua cerca de 600.000 anos, até à fase activa do vulcão Sabatin. Foi então que explosões freatomagmáticas - isto é, explosões geradas quando o magma entra em contacto com água - abriram um pequeno crater na rocha. É precisamente nessa depressão que, hoje, acontece o espectáculo do “chão a fumegar”.
Ao seguir o passadiço de madeira até à orla da zona turfosa, percebe-se depressa que a energia subterrânea continua a actuar. Sente-se um odor intenso a enxofre, há trechos em que o solo parece descolorado, e em dezenas de pequenas bacias a água turva, de tom cinzento, sobe em borbulhas constantes.
"As poças parecem estar a ferver - mas a água mantém-se por volta dos 20 graus; é a força dos gases que põe tudo em movimento."
Ao contrário dos géiseres conhecidos da Islândia ou das nascentes quentes de Yellowstone, nesta “encenação” o calor quase não entra em jogo. As bolhas resultam sobretudo de gases que ascendem, como dióxido de carbono e sulfureto de hidrogénio. Saem continuamente do subsolo, arrastam lama e água e criam o borbulhar típico do local.
Muito antes de haver explicações científicas, os etruscos já viam nesta área efervescente mais do que um simples fenómeno natural. Para eles, a Caldara marcava um limiar com o submundo - uma espécie de passagem para reinos de sombra. Mantus, o deus dos mortos que deu nome a Manziana e ao antigo bosque Silva Mantiana que aqui existia, teria, segundo a crença, o seu domínio precisamente neste lugar.
Bétulas como na Escandinávia: um enigma botânico dentro da cratera
Quase tão inesperada como a água a borbulhar é a orla de bosque que contorna a Caldara. Em vez das azinheiras típicas do Mediterrâneo, surgem bétulas altas, de tronco claro - uma árvore associada, habitualmente, à Escandinávia. Em pleno solo mineralizado e, por vezes, lodoso, estas bétulas encontraram um refúgio muito particular.
Os especialistas descrevem-nas como um “relíquia da Idade do Gelo”. A ideia é a seguinte: durante a última fase fria, a bétula expandiu-se mais amplamente pela Europa Central. Com o aquecimento do clima, muitos desses núcleos desapareceram - mas pequenas populações conseguiram persistir onde as condições locais se mantiveram suficientemente húmidas e frescas. A depressão criada pela cratera, com o seu microclima singular, reúne requisitos ideais para essa sobrevivência.
"As bétulas de Manziana são consideradas testemunhas vivas da última Idade do Gelo - no meio do ameno espaço mediterrânico."
A combinação de água rica em minerais, solos de reacção ácida e humidade elevada e constante originou aqui um sistema extremamente sensível, mas muito diverso em espécies. Para além das bétulas, cresce uma gramínea rara e de ocorrência apenas local (Agrostis canina ssp. monteluccii), bem como numerosos musgos e plantas adaptadas a ambientes encharcados.
Javalis, garças e um escorpião-de-água
Onde prosperam plantas pouco comuns, é frequente surgir também fauna especializada. Na Caldara e nos bosques adjacentes vivem javalis, raposas e texugos, além de vários répteis e anfíbios. Para quem observa aves, é normal avistar garças-cinzentas e garças-brancas, diferentes aves de rapina e passeriformes, que usam as margens das zonas húmidas como áreas de caça e de descanso.
Nas águas aparece, por vezes, uma pequena curiosidade zoológica: o escorpião-de-água. Este insecto predador, com um longo tubo respiratório na extremidade do abdómen, parece saído de um filme de ficção científica - e, ainda assim, encaixa surpreendentemente bem na atmosfera “extraterrestre” da cratera.
Como chegar: viagem curta, impacto grande
Partindo de Roma, a deslocação até à Caldara di Manziana demora, consoante o trânsito, cerca de 45 a 60 minutos. O trajecto pode ser feito pela Via Cassia ou pela cénica Via Braccianese, em direcção ao Lago de Bracciano. Pouco antes de Manziana, placas castanhas indicam o monumento natural.
Junto à estrada provincial SP2/c existe um parque de estacionamento; a partir daí, um caminho curto e praticamente plano entra no bosque. Ao fim de poucos minutos a pé, a clareira clara da cratera revela-se - um contraste inesperado com o verde escuro das árvores em redor.
- Como chegar: a partir de Roma pela Via Cassia ou Via Braccianese em direcção a Bracciano; depois, seguir a sinalização para Manziana
- Estacionamento: parque oficial na SP2/c, mesmo na entrada
- Percurso: algumas centenas de metros por trilho fácil e bem caminhável, também adequado para crianças
- Segurança: passadiços de madeira e corrimões protegem as zonas mais sensíveis de turfa e lama
- Duração: ideal para um passeio curto; pode ser combinado com uma caminhada maior no bosque como programa de dia inteiro
O circuito pela zona mais activa é breve, mas marcante. Para famílias com crianças, é um local que funciona muito bem: o “vapor frio”, a água que parece ferver e o cheiro a “ovos podres” ficam na memória. O essencial é respeitar os percursos assinalados - tanto para proteger o terreno como para poupar o calçado, já que a lama pode ser traiçoeira.
Macchia Grande: cenário de cinema com carvalhos e zonas de fogueira
Quem quiser prolongar a visita para lá de uma paragem rápida faz bem em juntar à Caldara uma volta pelo bosque vizinho de Macchia Grande. Os dois espaços ligam-se através do trilho CAI 262B, bem sinalizado.
Em Macchia Grande, o ambiente muda: em vez de bétulas, impõem-se carvalhos poderosos e com séculos. Entre os troncos abrem-se clareiras com grelhadores oficiais e áreas preparadas para piqueniques. Aos fins-de-semana, é comum encontrar muitas famílias romanas a passar o dia longe do ruído da cidade.
Além de paraíso para caminhantes, este bosque é também uma figura da história do cinema. Serviu de cenário, plano após plano, para clássicos italianos como "Il Marchese del Grillo" ou a versão de Roberto Benigni de "Pinocchio". Quem conhece os filmes reconhece de imediato certos conjuntos de árvores.
O que convém saber: regras de protecção, melhor época, riscos
A Caldara é um ambiente delicado. O solo de turfa e a vegetação rara sofrem rapidamente com danos de pisoteio. Por isso, a regra é clara: não sair dos trilhos, não colher plantas e não incomodar os animais. Os cães devem andar com trela - também para evitar assustar a fauna selvagem.
Algumas notas práticas ajudam a organizar a visita:
| Aspecto | Nota |
|---|---|
| Melhor época | Primavera e outono, clima ameno, menos visitantes |
| Verão | muito quente; na depressão o ar pode ficar parado; começar cedo de manhã |
| Inverno | frequentemente com nevoeiro e humidade; em contrapartida, uma atmosfera especialmente “mística” |
| Equipamento | calçado firme; eventualmente roupa extra para crianças; água; protecção solar |
| Riscos | lama escorregadia; solo instável em alguns pontos; gases de enxofre irritantes para pessoas sensíveis |
As concentrações de gás ficam, em geral, muito abaixo de valores críticos; ainda assim, pessoas com problemas respiratórios não devem permanecer horas mesmo em cima das zonas mais activas. As crianças, por vezes, reagem com maior sensibilidade ao cheiro, mas normalmente habituam-se depressa.
Geotermia em miniatura: o que explica o fenómeno
Em termos técnicos, a Caldara é um exemplo muito ilustrativo do chamado vulcanismo secundário. A câmara magmática principal já arrefeceu há muito tempo ou desceu significativamente, mas no subsolo continuam a circular fluidos quentes. Esses fluidos libertam gases das rochas, que sobem depois por zonas de fraqueza. Quando esse “pacote” gasoso encontra água subterrânea, formam-se bolhas que empurram a água para cima.
A baixa temperatura das nascentes indica que, actualmente, a contribuição de calor é limitada. O sistema funciona mais como uma enorme pedra difusora de aquário, alimentada por pressão a partir de baixo, do que como um verdadeiro géiser com água em ebulição. Para a investigação, a área é valiosa porque permite observar processos geotérmicos de forma concentrada, sem os perigos associados a um vulcão activo.
Quem se interessa por geologia consegue, no local, ver com clareza como são as zonas de emissão de gás, como os minerais cristalizam nas margens das poças e como o enxofre e o ferro alteram a cor do solo. Experiências simples - por exemplo, comparar a velocidade das bolhas em diferentes pontos - mostram que a alimentação de gases não tem a mesma intensidade em toda a cratera.
Dicas para um passeio de um dia bem conseguido
A Caldara di Manziana é perfeita como parte de um dia completo nos arredores de Roma. Muitas pessoas juntam a visita a um salto ao Lago de Bracciano, seja para nadar, seja para visitar um castelo. Saindo cedo, dá para fazer a cratera, um passeio pelo bosque, um piquenique e ainda uma caminhada ao fim do dia junto à água, tudo de seguida.
Para famílias, vale a pena mostrar previamente fotografias da Islândia ou de Yellowstone e pedir às crianças para adivinhar para onde vão a seguir. O choque ao descobrir que este “outro planeta” fica a um passo da Cidade Eterna costuma deixar toda a gente boquiaberta. É esse contraste que torna a Caldara tão especial: baralha por completo a ideia do que é “típico de Itália” - e, por isso, fica na memória.
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