No entanto, é precisamente isso que pode travar a sua carreira.
Em entrevistas e nos primeiros meses num novo emprego, a maioria das pessoas quer impressionar: capaz de fazer multitarefa, flexível, resistente, alguém que “torna tudo possível”. A curto prazo, esta postura parece brilhante. Com o tempo, porém, tende a acabar em exaustão, frustração e, paradoxalmente, em menos reconhecimento. Um psicólogo explica por que motivo o sobre-desempenho constante costuma prejudicar mais do que ajudar - e de que forma a “incompetência estratégica” pode salvar a sua produtividade e a sua saúde.
O aluno exemplar no escritório e o seu custo invisível
Porque é que a vontade de fazer tudo na perfeição o leva ao esgotamento
O dia de trabalho, hoje, é feito de notificações, e-mails, reuniões e pedidos ad hoc. Quem tenta ser impecável em tudo entra rapidamente num maratona mental permanente. Por trás do “tenho de dar conta de tudo” está muitas vezes uma necessidade forte de validação: elogios da chefia, colegas gratos, boas avaliações.
Cada tarefa concluída sabe a uma pequena vitória. A lista de afazeres encolhe - pelo menos por uns instantes. Só que o custo é elevado: o dia termina com a cabeça vazia, inquietação por dentro e sono de má qualidade. A energia é gasta a alimentar a imagem do “colaborador indispensável”, em vez de sustentar resultados duradouros.
“Quem é sempre a pessoa fiável para tudo paga muitas vezes com a sua saúde mental - e apercebe-se disso demasiado tarde.”
Por fora, quem trabalha sem parar parece extremamente dedicado; por dentro, cresce o risco de cansaço, irritabilidade e a sensação de nunca ser suficiente. A partir daí, a motivação transforma-se em sobrecarga.
Estar ocupado não é ser eficaz - a perigosa ilusão da produtividade
O cérebro adora movimento. Riscar itens de listas, responder a e-mails, alternar entre janelas - tudo isso dá uma sensação de velocidade e desempenho. Só que, na maioria das vezes, daí não nasce produtividade real.
Do ponto de vista da neurociência, o cérebro não consegue processar, ao mesmo tempo, várias tarefas exigentes. O que faz é saltar rapidamente de uma para outra. Cada mudança consome energia e concentração. É precisamente aqui que aparecem erros por distração, mal-entendidos e detalhes esquecidos.
Quando, numa videoconferência, tenta “despachar” e-mails importantes, na prática não está a fazer nada com qualidade. O que parece eficiência é, muitas vezes, apenas uma atenção fragmentada e stressada.
Quando a disponibilidade vira uma armadilha para a carreira
Sempre disponível? Então as tarefas menos desejadas acabam consigo
Em quase todas as equipas existe uma regra não dita: o trabalho vai parar a quem o faz sem falhar. Quem demonstra constantemente “eu também trato disso” atrai automaticamente mais tarefas - muitas delas, as mais aborrecidas.
Quem, além do que lhe compete, ainda arranja a impressora, organiza reuniões, redige atas, embeleza slides ou corrige os erros dos outros pode parecer valioso. Mas, pouco a pouco, essa pessoa acaba empurrada para um papel de suporte.
“A ‘pessoa para tudo’ transforma-se depressa numa estação de serviço interna - e perde de vista as tarefas realmente centrais.”
Em vez de estar envolvido em projectos estratégicos, o calendário enche-se de pequenas urgências. Actividades pouco desejadas e que consomem tempo - quase sem visibilidade - ocupam o dia e roubam espaço ao trabalho que, de facto, conta para a progressão.
Se faz tudo, ninguém percebe pelo que realmente se destaca
Quem é reconhecido por uma especialidade costuma ser tratado com respeito: “Precisamos dela para isto, dele para aquilo.” A competência é clara. Com a “pessoa para tudo” acontece o oposto.
Quem participa em tudo, mas não lidera com foco em lado nenhum, pode ser útil, porém facilmente substituível. A competência principal fica diluída no meio de um amontoado de contribuições laterais. E as chefias acabam por se lembrar mais da sua disponibilidade constante do que de um grande projecto que tenha executado com calma e profundidade.
Assim, a sua posição na empresa vai perdendo nitidez. De potencial especialista, passa a ser o clássico faz-tudo - simpático, trabalhador, mas não necessariamente alguém visto como pronto para promoção.
Incompetência estratégica: como recuperar a sua produtividade
Porque é que não deve expor todas as suas competências
O psicólogo chama-lhe “incompetência estratégica”: optar conscientemente por não “querer” fazer tudo aquilo que, na verdade, sabe fazer. Não se trata de representar ou “fazer-se de desentendido”, mas de definir prioridades com clareza.
Exemplos do dia a dia:
- Consegue fazer uma apresentação perfeita em PowerPoint em dez minutos - mas deixa de o fazer automaticamente para toda a gente.
- Sabe exactamente como pôr aquele equipamento teimoso a funcionar - mas recusa ser chamado sempre.
- Tem talento para organizar - mas não assume por defeito todos os eventos da equipa e todas as atas.
“Nem todas as competências precisam de estar permanentemente visíveis no escritório. Alguns talentos pode - e deve - protegê-los, por auto-protecção.”
Quando deixa de aceitar todas as tarefas extra, recupera controlo sobre o seu dia. Isto não é falta de espírito de equipa; é gestão saudável dos próprios recursos.
Escolha as suas batalhas de forma consciente
Agir de forma estratégica significa decidir, sem ambiguidades, onde investe a sua energia limitada. Ajuda fazer um check interno: esta tarefa contribui para os meus objectivos, para o meu papel, para o meu desenvolvimento - ou apenas me suga tempo?
Sinais típicos de que está na hora de corrigir o rumo:
- Começa dois grandes projectos ao mesmo tempo e não avança a sério em nenhum.
- Analisa documentação complexa enquanto, ao fundo, um podcast vai tocando.
- Redige um documento importante com o chat da empresa aberto em simultâneo.
- Percorre o calendário de forma frenética enquanto decorre uma reunião exigente.
- Ouve um colega enquanto, ao mesmo tempo, rabisca uma lista de tarefas pessoais.
Quando reduz estes padrões, sente rapidamente a diferença: a mente fica mais clara e o trabalho ganha profundidade. Fazer uma coisa de cada vez pode parecer, ao início, estranhamente lento - mas melhora os resultados e baixa o stress.
Mitos sobre desempenho que pode riscar sem medo
Multitarefa não é sinal de inteligência
Muitas empresas ainda celebram a multitarefa como se fosse a competência máxima. No entanto, estudos mostram há anos: quem muda de tarefa continuamente demora mais, erra mais e retém pior a informação.
Saltar entre e-mails, folhas de cálculo, chats e reuniões cansa mais depressa a memória de trabalho. Daí vêm quebras de concentração, agitação interna, maior necessidade de cafeína e, a longo prazo, níveis de stress mais elevados.
O verdadeiro profissionalismo vê-se mais na capacidade de trabalhar com foco num único tema, aceitar estar menos acessível e mergulhar a fundo numa tarefa. Isolar-se de forma intencional não é uma afronta à equipa; é um sinal: aqui está alguém a trabalhar a sério.
Novas balizas: como juntar desempenho e bem-estar
Reaprender a colocar limites exige prática. Muita gente foi condicionada durante anos a responder de imediato e a “despachar só mais isto”. Quem quer mudar pode começar com passos pequenos:
- Treinar deliberadamente frases como “agora não, eu respondo mais tarde”.
- Bloquear no calendário períodos sem e-mails, sem chat e sem reuniões.
- Dizer abertamente aos colegas qual é o seu foco - e o que, por isso, tem de ficar de fora.
- Não medir os seus sucessos pela quantidade de micro-tarefas concluídas, mas por poucos resultados realmente relevantes.
“A sua carreira depende mais, a longo prazo, de resultados claros e visíveis do que de disponibilidade permanente e activismo digital.”
Quando se atreve a deixar de ser o faz-tudo, ganha qualidade de vida: menos pressa por dentro, mais profundidade no trabalho, mais pausas a sério. Em fases de crescimento e de grandes mudanças - profissionais e pessoais - este foco pode funcionar como um escudo contra a sobrecarga.
Também ajuda rever, com regularidade, os seus padrões de trabalho: em que situações diz automaticamente que sim? Que tarefas lhe drenam energia sem retorno visível? Que competências usa por hábito, mesmo quando o empurram para papéis que nem deseja? Ao ganhar clareza aqui, torna-se mais fácil moldar a sua posição na empresa de forma consciente.
No fim, não se trata de ser menos empenhado, mas de ser mais preciso. Quando aplica as suas supostas “superforças” nos sítios certos - e as resguarda nos errados - não só protege a sua saúde mental como aumenta a probabilidade de ser reconhecido pelo que realmente importa.
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