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Zach Galifianakis encontra calma em Mãos na Terra na Netflix

Homem ajoelhado a colher cogumelos numa horta com cesta de vime ao lado em dia ensolarado.

É provável que associe Zach Galifianakis à saga cómica “A Ressaca”, em que um grupo de amigos acaba em destinos improváveis depois de uma noite de álcool e estupefacientes. Mas a persona desinteressada e ligeiramente trocista - aquela postura em que parece estar sempre a desvalorizar quem tem à frente - vem sobretudo de um programa de entrevistas chamado “Entre Dois Fetos”, que começou na plataforma Rir ou Morrer e mais tarde chegou à Netflix. Esse registo de escárnio, em que nunca é claro se o convidado está prestes a perder a paciência e se o anfitrião é mesmo assim, dá agora lugar a outra coisa: uma atitude mais contemplativa, quase um recuo do barulho.

Zach Galifianakis e “Mãos na Terra”: do sarcasmo ao sossego

“This Is a Gardening Show” (intitulado “Mãos na Terra”, em Portugal), realizado por Brook Linder (“Toda a Gente em Direto com John Mulaney”), propõe-se como uma pausa do ruído social e virtual que ocupa o dia-a-dia. Em episódios curtos, jardinagem e horticultura caminham lado a lado para perguntar, com simplicidade, o que andamos aqui a fazer. Aos 56 anos, Galifianakis parece divertir-se com aquilo que costuma passar despercebido: conversas cheias de graça com crianças, trocas mais ponderadas com especialistas, explicações sobre como plantar tomates da melhor forma - e uma sensação persistente de que o futuro da televisão terá de incluir conteúdos assim.

Informação sem ser “à força”

Galifianakis não está a reinventar nada. Ainda assim, há algo que o distingue: a maneira como se liberta da obrigação de fazer rir a cada segundo e como deixa a informação aparecer naturalmente, em pequenos blocos, sem nunca a empurrar ao espectador. A leveza do campo surge sem condescendência e a quarta parede é quebrada sempre que lhe apetece, com a mesma calma de quem não tem pressa de chegar a lado nenhum. A comparação com “Cunk na Terra” (Netflix) torna-se inevitável: aí, por vezes, parece que o algoritmo obrigou Diane Morgan a estar permanentemente em modo piada.

“Em cinco minutos com vocês já aprendi mais sobre tomates do que na minha vida inteira”; diz ele a um casal de agricultores, logo no segundo episódio, depois de provar aqueles que parecem ser os tomates mais deliciosos do universo. Até o apresentador dá a impressão de estar a reaprender como se volta à escola.

Forragear, enxertia e outras palavras que saem do betão

O que é forragear? Há roupa adequada para isso? E a técnica de propagação assexuada que junta tecidos de duas plantas diferentes - mais conhecida como enxertia - sabe, afinal, o que é? Há quem saiba, como Galifianakis, e há quem participe nestes episódios e pareça tão distante das figuras dos grandes centros urbanos que quase soa a ficção. No fundo, este programa tem o ar de ser um sonho antigo do ator, que mantém como passatempo a vida de jardineiro/agricultor.

Seis episódios entre cogumelos, raízes e feiras agrícolas

Em “This Is a Gardening Show”, cruzamo-nos com quem apanhe 110 quilos de cogumelos e com quem passe dias inteiros de sol a tratar dos vegetais, sublinhando que é preciso cuidar bem das raízes. Vemos também um modo de trabalho que evita vender às grandes superfícies, preferindo a proximidade das feiras agrícolas.

Estes seis episódios podem caber na gaveta da comédia, mas, na componente pedagógica - com animações simples e eficazes -, dão dez a zero a qualquer campanha sobre alterações climáticas. “O futuro é agrário”, repete Galifianakis, sem moralismos. Aqui, a mudança de hábitos nasce do que nos liga enquanto espécie: a curiosidade e o ato de brincar como ferramenta de aprendizagem. Estará Galifianakis para a jardinagem como David Attenborough para o mundo selvagem, ou como Filipa Vacondeus esteve para a culinária em Portugal? Será preciso esperar por uma segunda temporada para o confirmar.

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