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Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e a inteligência artificial: por que excluir do Oscar?

Homem a trabalhar edição de vídeo no computador com desenhos e claquete numa mesa branca de escritório.

A decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas sobre inteligência artificial e Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas veio afirmar que personagens geradas por inteligência artificial e guiões produzidos pelo mesmo processo não podem ser considerados elegíveis para vencer um Oscar. A minha reacção imediata foi lembrar Jacques de La Palice e a palavra "lapalissada", por parecer uma posição que apenas sublinha o óbvio.

Ao pensar melhor no assunto, porém, acabei por concluir que discordo por completo desta decisão. Parte-se de um pressuposto muito comum - o de que o resultado de um pedido feito a um serviço de inteligência artificial é, pura e simplesmente, obra autónoma de uma máquina. Na prática, a realidade é bem mais complexa.

O caso de "As deep as the grave" e Val Kilmer

Um exemplo recente ajuda a perceber o problema: o filme "As deep as the grave", protagonizado por Val Kilmer, actor que morreu em 2025, antes de poder participar nas filmagens.

O norte-americano enfrentava sérios problemas de saúde decorrentes de um cancro na garganta e acabou por falecer devido a uma pneumonia, numa fase em que já não tinha forças para entrar no local de rodagem e gravar. Ainda assim, a produção não foi interrompida: com o apoio da família de Kilmer, recorreu-se a um sistema avançado de IA para recriar a imagem, a voz e os movimentos do actor.

E como foi feito? O software foi alimentado com imagens de Kilmer em diferentes idades, de forma a reconstruir o seu aspecto, a colocá-lo a dizer as falas previstas no guião e a executar os movimentos solicitados pelo realizador.

Autonomia da IA: a origem do equívoco

Se a interpretação do Kilmer virtual vier, de facto, a justificar uma distinção, não faria sentido que essa distinção fosse atribuída, de modo póstumo, ao actor? No fundo, tudo começa num erro de base: assumir a autonomia das máquinas de IA.

Estes sistemas podem ser excelentes a estabelecer ligações entre conceitos, informação e dados, e a produzir um resultado que parece novo e inovador. No entanto, sem informação criada por humanos - textos, música, cinema, fotografia - a máquina não tem matéria com que trabalhar. E é precisamente aí que reside o superpoder humano.

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