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A crise silenciosa dos estudantes de cinema: a sociedade dos 47 segundos e o telemóvel

Pessoas sentadas numa sala com cadeiras vermelhas a ver um filme, algumas usam telemóveis e uma tem caderno aberto.

Docentes de cinema falam de uma crise silenciosa: até os futuros cinéfilos perdem o fio à história ao fim de poucos minutos - e voltam a pegar no telemóvel.

Num anfiteatro passa uma obra-prima; no colo, o smartphone não pára de acender. O que soa a cliché é, segundo professores de cinema nos EUA, rotina. Muitos estudantes dizem adorar cinema em teoria, mas já não conseguem ver um único filme com atenção do princípio ao fim.

Quando até estudantes de cinema já não aguentam ver filmes

Durante anos, quem entrava numa escola de cinema ou num curso universitário do sector era visto como alguém apaixonado pela sétima arte. Essa ideia está a desfazer-se. Docentes relatam que aquilo que devia ser o básico - ver um filme com atenção - passou a ser um obstáculo.

O “melhor possível” trabalho universitário, ver um grande filme, é sentido por muitos estudantes como uma afronta.

Um professor de uma prestigiada faculdade de cinema na Califórnia diz que, hoje, os seus alunos se comportam como pessoas com uma dependência: querem concentrar-se, mas estendem a mão por reflexo para o telemóvel assim que a narrativa abranda por instantes. Mesmo quando os docentes avisam antes da sessão: “O final é decisivo, têm mesmo de estar atentos”, muitos acabam a olhar para baixo - para o ecrã, não para a tela.

E não se trata apenas de percepções. Algumas plataformas internas de streaming usadas por universidades norte-americanas registam com precisão quanto tempo os estudantes deixam os filmes recomendados a correr. O que aparece nos registos deixa muitos professores alarmados:

  • Menos de metade dos estudantes chega sequer a iniciar o filme obrigatório.
  • Apenas cerca de um quinto acompanha até aos créditos finais.
  • As avaliações sobre conteúdo e detalhes ficam claramente piores do que antigamente.

Um professor de cinema do Wisconsin conta que prescreveu, numa disciplina, o clássico “Jules e Jim”. Mais tarde, mais de metade dos participantes falhou perguntas simples de escolha múltipla sobre o enredo. E, em respostas abertas, alguns chegaram a inserir cenas inventadas - por exemplo, uma fuga aos nazis, apesar de a história decorrer antes da Segunda Guerra Mundial. Para o docente, foi a primeira vez em vinte anos de carreira que teve de ajustar a escala de notas para baixo, porque havia demasiados indícios de que muita gente não tinha visto o filme com atenção.

A sociedade dos 47 segundos: atenção em staccato

O que é que está a acontecer? Muitos investigadores não apontam apenas falta de disciplina, mas sim o resultado de uma mudança profunda nos hábitos digitais. Um estudo recente sobre utilização de computador chega a uma conclusão contundente: hoje, em média, as pessoas mudam de programa, separador ou aplicação a cada 47 segundos.

Há vinte anos, os utilizadores mantinham a atenção numa janela do ecrã durante dois minutos e meio - hoje nem sequer durante um minuto.

Redes sociais de scroll infinito, vídeos curtos e notificações constantes treinam o cérebro para estímulos rápidos. Nesse contexto, planos longos, ritmos pausados e nuances discretas ficam para trás. O que antes era uma virtude do cinema - tempo para construção, atmosfera e ressonância - parece a muitos espectadores jovens um erro do sistema.

Os professores notam-no em todas as projeções. Mesmo em salas escuras, surgem pequenos ecrãs por baixo das mesas. Há estudantes que não conseguem ficar dez minutos seguidos apenas a ver. O impulso de ir espreitar e-mails, mensagens ou feeds está mais entranhado do que o interesse pelo que se passa na história.

Plataformas de streaming e Hollywood já estão a reagir

A indústria não está parada. Os grandes serviços de streaming sabem ao detalhe quantas vezes os utilizadores avançam, fazem pausa ou desistem. E há indicações internas que mostram como as produções se estão a moldar a esses dados. O actor Matt Damon contou, numa conversa em podcast, que um grande fornecedor de streaming aconselha agora, de forma explícita, realizadoras e realizadores a repetir várias vezes, nos diálogos, pontos centrais da narrativa.

Quem está a conversar em paralelo ou a fazer scroll no Instagram deve conseguir acompanhar a história - mesmo com metade da atenção.

O efeito disso é claro: guiões mais redundantes e menos subtis. Aquilo que antes podia ser dito uma vez passa a ter de ser reforçado, reintroduzido e reformulado continuamente. Para quem vê com concentração, parece mastigação desnecessária; para quem faz multitarefa, torna-se a única forma de não perder por completo o fio.

O padrão aparece também nas temporadas de prémios. Repetem-se os relatos de membros de academias de cinema que, em privado, admitem não ver por inteiro todas as obras nomeadas. Trailers, excertos, rankings e opiniões nas redes sociais acabam por pesar mais na decisão do que a experiência de ver com paciência.

Da experiência à simples “paisagem sonora”

Durante muito tempo, ver um filme era um acontecimento: luzes apagadas, atenção total, conversa depois. Hoje, muitas vezes, o filme fica a correr “ao lado” da vida. Cozinhar, conversar, responder a e-mails, fazer compras online - a obra compete com tudo ao mesmo tempo e perde com frequência. Os docentes sentem a mudança quando chegam os testes no fim do semestre e os estudantes não conseguem identificar viragens essenciais.

Para muitos, o cinema transforma-se em ruído de fundo consumido em fragmentos, em vez de uma experiência coesa.

Até quem quer vir a trabalhar profissionalmente com cinema pratica menos o acto de ver com foco. E isso tem custos: para compreender montagem, ritmo e linguagem visual, é preciso perceber precisamente os arcos longos e os momentos discretos. Quem passa a pensar apenas em “snacks” de 30 segundos deixa escapar o ofício que está por trás.

O que está por trás desta atenção a desmoronar-se

Vários psicólogos descrevem o fenómeno como uma “mudança de atenção”. O cérebro habitua-se a ser alimentado sem parar com novos estímulos. Quando esse pico não chega, acusa tédio - e procura outra distracção.

A isto soma-se a pressão de desempenho. Muitos estudantes acumulam empregos, presença nas redes sociais, matérias da universidade e vida pessoal. Um filme com duas horas de duração vai parar à mesma gaveta mental de textos longos: algo que se “devia” fazer, mas que pesa, porque exige tempo e silêncio.

A pandemia agravou a tendência. Aulas online, sessões vistas no portátil, streams disponíveis a qualquer hora - tudo isto tornou ainda mais difusa a fronteira entre estudar, lazer e dispersão. Quem passou anos em teletrabalho, com dez janelas abertas, tem dificuldade em voltar a sentar-se com concentração numa sala escura.

Caminhos para voltar a ver filmes com atenção

Recuperar o foco não tem de significar uma fidelidade romântica e idealizada ao cinema. Muitos educadores já testam medidas pragmáticas para reaproximar os estudantes de formatos longos. Entre as abordagens mais comuns:

  • Regras claras sobre telemóvel na sala e caixas de recolha antes da projeção.
  • Visionamento guiado, com paragens curtas para perguntas e observações.
  • Tarefas preparatórias para despertar curiosidade sobre cenas específicas.
  • Filmes mais curtos ou obras episódicas como porta de entrada, antes de grandes clássicos.
  • Exercícios de reflexão em que as impressões pessoais contam mais do que a verificação exaustiva de detalhes.

Quem, em casa, sente que já não consegue “aguentar” um filme pode aplicar estratégias semelhantes: deixar o telemóvel noutra divisão, criar um ritual deliberado de visionamento, combinar ver com amigas e amigos - em grupo, é mais fácil manter-se atento. Também ajuda voltar com mais frequência ao cinema em vez de ver sozinho em casa. O contexto social e o ecrã grande aumentam o foco quase automaticamente.

Porque vale a pena treinar a resistência ao ver um filme

Um filme mais longo obriga-nos a acompanhar uma narrativa, em vez de apenas lhe tocar de raspão. Aí está o seu valor. Quem pratica isso com regularidade não treina apenas literacia mediática; reforça, de forma geral, a capacidade de permanecer numa tarefa. Essa resistência também se traduz em benefícios na leitura, no estudo e no trabalho.

É claro que o ecossistema mediático continuará a deslocar-se para formatos curtos. Ainda assim, a longa-metragem mantém-se como um meio de contar histórias com qualidades que nenhum clip de 20 segundos substitui: evoluções lentas, personagens ambíguas, atmosferas que só ao fim de uma hora começam a produzir efeito. E é precisamente por isso que compensa, de vez em quando, pôr a atenção à prova - sem segundo ecrã, sem distracções, apenas com a tela à frente.


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