E há muita gente que nem se apercebe de que o está a fazer.
Quando te abres e falas sobre o que estás a sentir, ficas inevitavelmente mais vulnerável. Se a outra pessoa reage de forma fria, impaciente ou condescendente, é comum ficar aquele peso no peito: "Devo ter algum problema." Por detrás destes momentos existe um padrão bem identificável - desvalorização emocional. E, muitas vezes, aparece em frases muito concretas, que quase toda a gente já ouviu… ou já disse.
O que a desvalorização emocional realmente significa
Desvalorização emocional é quando os sentimentos de alguém são diminuídos, ignorados ou tratados como exagero. Pode acontecer de forma directa, mas também de maneira subtil, escondida em frases aparentemente racionais ou "bem-intencionadas".
Quem desvaloriza sentimentos está, na prática, a transmitir: "Aquilo que estás a sentir está errado." E isso atinge em cheio a auto-estima.
De forma geral, uma resposta emocional saudável dentro de uma relação passa por três passos simples:
- perceber o sentimento na outra pessoa
- reconhecer esse sentimento como real e compreensível
- dar espaço para que seja dito, sem tentar corrigi-lo imediatamente
É precisamente aqui que muita gente falha - muitas vezes sem querer. Por insegurança, stress ou por estar no limite, acabam por sair frases que não levam a sério a experiência do outro. Com o tempo, isto pode desgastar profundamente qualquer relação, seja em casal, na família, entre amigos ou no trabalho.
Frases típicas que minimizam os sentimentos
A neuropsicóloga Nawal Mustafa aponta algumas formulações que devem soar como um sinal de alerta. Indicam que, naquele instante, os sentimentos do outro não estão a ter um lugar seguro. Entre elas estão frases como:
- "Agora não exageres."
- "Não podemos simplesmente deixar isso para trás?"
- "Estás a pensar demasiado nisso."
- "Devias era estar grato pelo que tens."
- "Tu nunca me ouves."
À primeira vista, algumas destas frases até podem parecer inofensivas. Surgem sobretudo em momentos tensos, quando alguém quer encerrar o conflito ou impor calma. Ainda assim, o impacto costuma ser forte: quem as ouve sente-se incompreendido, demasiado sensível ou até culpado por ter falado.
Porque é que estas frases magoam tanto
Quando alguém responde desta forma, envia várias mensagens implícitas ao mesmo tempo:
- A tua percepção está errada.
- Estás a exagerar.
- Aquilo que sentes não é apropriado.
- Não quero lidar com isto.
Em relações próximas, isto é particularmente destrutivo. Um parceiro que reage assim repetidamente coloca em causa, de forma contínua, o "mundo interior" do outro. Amizades podem tornar-se distantes e instáveis. E crianças tratadas desta maneira acabam por aprender a esconder o que sentem - ou deixam de conseguir reconhecer bem as próprias emoções.
Quem é desvalorizado emocionalmente durante muito tempo começa muitas vezes a deixar de confiar em si - e a relativizar constantemente a própria experiência.
De onde costuma vir esta desvalorização emocional
Um ponto importante: a maioria das pessoas que desvaloriza as emoções dos outros não está, necessariamente, a tentar magoar de propósito. Muitas estão, na verdade, a tentar proteger-se ou a resolver rapidamente uma situação desconfortável.
Psicoterapeutas chamam a atenção para alguns motivos frequentes:
- Sobrecarga pessoal: quem já tem dificuldade em lidar com as próprias emoções sente-se ainda mais inundado pelas emoções dos outros.
- Vergonha e bagagem emocional antiga: pessoas com vergonha profundamente enraizada podem construir uma fachada dura e desvalorizar os outros para se sentirem mais fortes por dentro.
- Medo de intimidade: quem considera a proximidade e a vulnerabilidade perigosas prefere manter distância - e uma forma rápida de o fazer é diminuir o que o outro sente.
- Evitar responsabilidade: quem não quer encarar o seu papel num conflito tende a rotular a reacção do outro como exagerada.
Estes padrões formam-se muitas vezes cedo, por exemplo em famílias onde não se falava de sentimentos, onde o que contava era apenas "funcionar" ou onde a fragilidade era ridicularizada. Quem cresce assim aprende: emoções são incómodas ou embaraçosas. Mais tarde, saem automaticamente frases como "Controla-te" ou "Não tens razão para isso" - porque nunca se viu outra forma.
Sinais de que estás a ser desvalorizado emocionalmente
Nem sempre é fácil pôr emoções em palavras, mas os efeitos da desvalorização emocional notam-se com clareza no dia a dia. Sinais comuns incluem:
- pensas duas e três vezes antes de falares de algo, "para não criar stress"
- depois de conversas, sentes-te vazio, diminuído ou "demasiado sensível"
- ouves frequentemente frases como "Não foi isso que eu quis dizer" ou "Estás a ver isso mal"
- a outra pessoa vira o jogo e transforma o teu sentimento numa mágoa dela
- pedes desculpa automaticamente sempre que expressas uma necessidade
Quando estes padrões se repetem, é comum começares a autocensurar-te. A lógica interna passa a ser: "Se eu sentir menos, há menos problemas." Só que isso nunca resulta; o mais provável é levar a afastamento emocional e exaustão.
Como soam frases saudáveis e respeitadoras
O oposto de desvalorização emocional não é concordar cegamente; é reconhecimento emocional: levar a sério o que o outro sente, mesmo quando, nos factos, se discorda. Na prática, pode soar assim:
- "Estou a ver que isto te está a pesar."
- "Percebo que estejas zangado, mesmo que eu tenha vivido isto de outra forma."
- "Conta-me mais, quero compreender o que se passa contigo."
- "O teu sentimento é legítimo; vamos ver juntos o que podemos fazer."
Reconhecer sentimentos não significa: eu tenho automaticamente culpa. Significa: eu reparo no que se passa dentro de ti e não fujo disso.
Isto nota-se até em pequenos gestos: alguém que pousa o telemóvel durante a conversa, faz perguntas, procura palavras - em vez de responder por impulso. O reconhecimento emocional muitas vezes exige apenas alguns segundos: escolher não desvalorizar logo.
Estratégias práticas para o dia a dia
Se dás por ti a pensar "eu respondo muitas vezes de forma dura ou irritada", podes treinar pequenas mudanças:
- Carregar no botão de pausa: antes de responderes, faz mentalmente uma pausa de três segundos.
- Nomear em vez de julgar: "Pareces muito magoado / desiludido / sobrecarregado" em vez de "Estás a exagerar".
- Perguntar: "O que foi, para ti, a parte mais difícil disto?"
- Definir limites com honestidade: "Quero ouvir-te, mas preciso de um momento para me organizar."
Em relações próximas, vale a pena fazer um acordo claro: "Levamos os sentimentos um do outro a sério, mesmo quando nem sempre os partilhamos." Só isso já muda o tom de muitas conversas.
O que o respeito emocional faz à saúde psicológica
Psicoterapeutas sublinham o quanto o reconhecimento emocional influencia o bem-estar mental. Quem tem com frequência a experiência de "Os meus sentimentos são permitidos" tende a desenvolver:
- uma auto-estima mais estável
- mais confiança na própria percepção
- melhor capacidade de comunicação em conflitos
- uma ligação mais profunda a parceiros, amigos e filhos
O inverso também é verdadeiro: desvalorização emocional persistente pode aumentar o risco de depressão, perturbações de ansiedade ou crises relacionais crónicas. Pessoas que duvidam demasiado de si dizem com menos clareza quando os limites são ultrapassados. E, por isso, entram mais facilmente em relações onde mandam o poder e o controlo, em vez da igualdade.
Olhar para este tema tem, por isso, dois lados: por um lado, ajuda-te a identificar quando alguém está a diminuir o que sentes. Por outro, também te permite perceber quando és tu que, sob stress, recorres a frases que talvez tenhas aprendido no passado. E quando começas a testar conscientemente novas formas de responder, crias algo que faltou durante muito tempo em muitas relações: um espaço onde as emoções não são avaliadas, mas sim compreendidas.
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