A sala, a equipa e o objectivo das histórias
Numa sala fechada juntam-se oito pessoas: sete homens e uma mulher. Formam uma equipa liderada por Sandy. O trabalho que lhes é pedido consiste em contar e inventar narrativas, repetidas vezes, até encontrarem aquela que seria a melhor história do mundo - a história que ninguém contou ainda, ou que talvez já tenha sido contada mas caiu no esquecimento; a história capaz de encerrar todas as histórias, ou algo do género.
Os expedientes de Sandy para manter o ritmo
As histórias sucedem-se sem pausa, e Sandy vai puxando pela equipa com todo o tipo de artifícios, para lá do salário que recebem. Entre esses estímulos, pede-lhes que exponham as piores experiências por que passaram. Ou que recordem e relatem a primeira vez que tiveram relações sexuais.
Sarah, as “patacoadas” motivacionais e o avesso do projecto
A espaços, entra uma outra mulher, Sarah - uma espécie de secretária, aparentemente sempre bem-disposta e cheia de energia - que aponta o que eles querem comer, ou algo semelhante. Sandy vai-lhes repetindo que “as histórias estão a ficar cada vez melhores”, lembrando-lhes que lhe foi dada a “oportunidade de criar uma coisa sem precedentes”, garantindo que podem mudar o mundo e debitando outras patacoadas do mesmo tom, que a equipa acolhe com o entusiasmo possível.
O que está ali em marcha, afinal, é mais um projecto destinado a resultar e a gerar dinheiro: um mecanismo que nasce torto e, de tempos a tempos, deixa ver as suas costuras - o lado oculto, aquilo que uns procuram disfarçar e outros preferem não ver, não sentir, fingindo que nada se passa. No fundo, nada pode correr bem; ainda assim, talvez nunca se descubra o que existe para lá do cansaço, da exaustão e dos pequenos surtos de uma espécie de doença cujo único horizonte parece ser o nada, ou o desaparecimento.
Ficha do espectáculo: “Os Antípodas” (Os Possessos)
“Os Antípodas” é um projecto de Os Possessos, com encenação de João Pedro Mamede e interpretação de João Pedro Vaz, Isabel Costa e Catarina Rôlo Salgueiro, entre outros. Tradução de Fernando Villas-Boas e João Pedro Mamede.
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