Austin e Lee são irmãos. Austin, o mais novo, está concentrado em terminar um argumento para apresentar a um produtor de cinema. Para isso, aproveita a viagem da mãe ao Alasca e instala-se na casa dela, onde, entre o trabalho, também se encarrega de regar e tratar das plantas.
A rotina é interrompida quando chega Lee, o irmão mais velho, que passou meses no deserto e que, desde o primeiro momento, se dedica a desviar Austin da escrita e a quebrar o ritmo de trabalho.
Enredo: dois irmãos na casa da mãe
A convivência começa sob tensão e rapidamente se percebe que Lee não está ali para facilitar: provoca, insiste, ocupa o espaço e empurra o irmão para fora da disciplina necessária para concluir o texto. Austin tenta manter-se focado no objectivo de entregar o argumento, mas a presença de Lee impõe outra dinâmica à casa e ao processo criativo.
Assimetria social e pessoal entre Austin e Lee
Desde o início, a relação é marcada por uma desigualdade evidente. Austin seguiu estudos, construiu família e mantém uma vida enquadrada numa normalidade reconhecível. Lee, pelo contrário, surge como um outcast: vive nas margens da sociedade estabelecida e burguesa e projecta sustentar-se através de pequenos furtos nas casas ricas do bairro onde a mãe vive.
Ainda assim, é Lee quem consegue inverter o jogo: acaba por “roubar” ao irmão o contrato com o produtor, que identifica nele um talento potencialmente lucrativo. Para que a aposta resulte, porém, é exigida uma colaboração forçada - Lee fornece as ideias e Austin tem de lhes dar forma escrita.
O plano parece destinado ao desastre e, de facto, funciona sobretudo como detonador: a violência já existente entre ambos ganha impulso e entra numa escalada sem horizonte de fim.
“Verdadeiro Oeste”: criatividade, privilégio e violência
“Verdadeiro Oeste”, estreada em São Francisco, no ano de 1980, põe em confronto relações entre quem tem privilégios e quem não os tem. A peça contrapõe, por um lado, a criatividade disciplinada e enquadrada do irmão escritor e argumentista e, por outro, uma criatividade solta - indomável e violenta - encarnada por Lee.
É também o retrato de dois irmãos opostos em quase tudo, mas incapazes de romper o laço que os prende um ao outro. Nesse sentido, fala de vínculos familiares que são simultaneamente violentos, destrutivos e inevitáveis. E, talvez, seja ainda um retrato dos EUA: um oeste sempre verdadeiro, um país vasto e diverso, terreno de todas as tentações, de grandes virtudes e de todos os vícios.
Tradução, cenografia e encenação de Rita Lello, interpretação de André Nunes, Martim Pedroso, Heitor Lourenço e Valerie Braddell.
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