Quando chove durante a noite, o dia seguinte no jardim muitas vezes começa com um verdadeiro cenário de “limpezas”: canteiros acabados de semear parecem ter sido rapados, folhas tenras surgem cheias de buracos e, de certas alfaces, fica apenas um toco desanimador. Na maioria das vezes, o culpado não são os animais “maus”, mas sim um desequilíbrio no ecossistema do jardim. Uma armadilha para lesmas feita em casa pode reduzir bastante o problema - sem venenos e sem matar.
Porque é que as lesmas adoram a sua horta
Assim que cai a noite, ou sempre que o solo fica bem húmido depois de um aguaceiro, as lesmas saem dos seus esconderijos. Deslocam-se com determinação para as zonas onde esperam encontrar as melhores “iguarias”.
O que as atrai de forma especial:
- folhas de alface tenras e outras hortícolas jovens
- morangos e outros frutos doces
- sementeiras recentes com folhagem ainda macia
- plantas ornamentais de folhas suaves, como hostas ou dálias
No fundo, estão apenas a fazer aquilo que fazem na natureza: alimentar-se de matéria orgânica e, assim, ajudar no processo de decomposição. Numa horta cuidada, porém, este apetite transforma-se rapidamente em estragos sérios. Um único exemplar adulto consegue consumir cerca de 40 por cento do seu próprio peso em plantas por dia. Se houver várias dezenas, a balança pende claramente contra si.
Devem as lesmas ser mesmo mortas?
Perante a frustração, muita gente recorre a grânulos azuis, sprays tóxicos ou armadilhas com cerveja. À primeira vista, parecem soluções práticas - mas trazem consigo uma longa lista de inconvenientes.
"Os venenos para lesmas atingem muitas vezes não só as lesmas, mas também os seus predadores - e podem pôr em risco crianças e animais de estimação."
Cães e gatos cheiram tudo o que encontram no jardim, e as crianças pequenas também levam facilmente algo à boca. Por isso, iscos tóxicos não têm lugar num jardim de família. Mesmo produtos anunciados como “seguros para animais de estimação” podem ter efeitos inesperados noutros organismos.
As armadilhas com cerveja, por seu lado, atraem lesmas de longe e acabam por as afogar de forma dolorosa. Além disso, por vezes caem lá dentro escaravelhos úteis e outros pequenos animais. Muitos jardineiros amadores já não querem lidar assim com seres vivos - e procuram alternativas que respeitem tanto o jardim como a consciência.
A armadilha da caixa de salada: simples, barata e sem sofrimento animal
Há uma alternativa engenhosa que dispensa por completo venenos e métodos “sangrentos”. A base é uma caixa de plástico comum, do tipo em que vêm saladas embaladas ou outros alimentos. A partir daí, cria-se um ponto de atracção protegido onde as lesmas se concentram, para depois serem levadas para longe - bem longe - das suas hortícolas.
O que precisa para a armadilha para lesmas
- uma caixa de plástico transparente, por exemplo uma embalagem vazia de salada do supermercado
- um resto muito maduro de fruta ou legumes (pedaço de maçã, casca de melão, folhas de alface murchas)
- uma faca afiada, um x-acto (cutter) ou uma tesoura resistente
- um pouco de terra húmida ou musgo
- uma pedra pequena ou um pedaço de madeira grosso para servir de apoio
Como construir o apanhador de lesmas amigo dos animais
- Abra pequenas entradas nas laterais da caixa, a cerca de dois centímetros acima do futuro “chão”. Devem ser suficientemente grandes para as lesmas passarem com facilidade, mas não tão grandes que o interior seque depressa.
- Coloque uma camada fina de terra húmida ou musgo. Isso cria um microclima fresco e húmido onde as lesmas gostam de ficar.
- Ponha no centro um pedaço de fruta bem madura ou uma folha de alface murcha. O aroma doce e ligeiramente fermentado é particularmente apelativo.
- Vire a caixa ao contrário (abertura para baixo) e coloque-a no canteiro. O melhor é um local sombrio e húmido, perto das plantas mais afectadas.
- Levante ligeiramente um dos lados com uma pedra. Assim forma-se uma entrada baixa que as lesmas conseguem usar sem dificuldade.
"A combinação de humidade, escuridão e cheiro adocicado funciona como um íman para lesmas - só que num local controlado."
Passadas algumas horas, ou na manhã seguinte, é comum encontrar vários exemplares dentro da caixa a roer o isco, em vez de estarem a atacar as suas alfaces.
Porque é que este método funciona surpreendentemente bem
As lesmas orientam-se muito pelo cheiro e pela humidade. Para elas, fruta em decomposição cheira a banquete. Ao mesmo tempo, procuram esconderijos escuros e protegidos para não secarem durante o dia.
Dentro da caixa transparente, encontram exactamente isso:
- odores doces e “passados” que as atraem
- humidade estável graças à terra húmida
- protecção contra sol e vento
O plástico claro deixa entrar luz e pode desorientá-las ligeiramente. Assim, não encontram tão depressa a saída, acumulam-se na armadilha e podem ser recolhidas com facilidade. Quem tem muitas lesmas no jardim pode colocar várias caixas em simultâneo - por exemplo, uma por cada 10 a 15 metros quadrados de canteiro.
Erros importantes que muitos jardineiros cometem
Para que a armadilha da caixa de salada ajude de forma fiável, vale a pena evitar os enganos mais comuns.
- Sol direto: se a caixa ficar ao sol forte ao meio-dia, aquece demasiado. O isco seca e os animais sofrem. Prefira zonas sombreadas e húmidas.
- Iscos demasiado passados: fruta muito podre atrai não só lesmas, mas também formigas, moscas e outros visitantes. O ideal é “muito madura”, mas ainda não viscosa.
- Local errado para libertar: levar as lesmas recolhidas e largá-las logo no canteiro do vizinho apenas desloca o problema. É preferível um espaço mais “selvagem” e com muita vegetação, como uma vala, uma sebe ou uma faixa inculta, longe de hortas.
Como integrar a armadilha num jardim natural equilibrado
A armadilha da caixa de salada não é uma solução milagrosa que resolve tudo de uma vez. É mais uma ferramenta no conjunto de um jardim de inspiração natural. Para ter menos lesmas a longo prazo, compensa reforçar em paralelo os seus inimigos naturais.
Entre eles contam-se, por exemplo:
- sapos e rãs, que comem muitas lesmas
- escaravelhos-carabídeos, que reduzem ovos e juvenis
- aves que nidificam em sebes e arbustos e procuram alimento no jardim
- ouriços, que à noite percorrem montes de folhas e cantos mais “bravos”
Ao oferecer abrigo - montes de folhas, alinhamentos de pedras, madeira morta, sebes densas - atrai estes auxiliares. Em simultâneo, pode tornar o jardim menos convidativo para as lesmas: regar menos ao fim do dia, usar mais cobertura (mulch) de material grosso e criar barreiras com areia grossa, brita (splitt) ou cascas de ovo trituradas à volta das plantas mais sensíveis.
Dicas práticas para o dia a dia na horta
Muitos jardineiros amadores dizem que, com um “ritmo das lesmas”, a jardinagem se torna muito mais tranquila. Por exemplo:
- ao fim da tarde, antes de chover ou com tempo húmido, preparar os iscos e distribuir as caixas nas bordas dos canteiros
- de manhã cedo, verificar as armadilhas e esvaziar as caixas que estiverem cheias
- transportar as lesmas para uma zona adequada e natural
- trocar o isco quando estiver seco ou com bolor
Se tiver culturas especialmente vulneráveis - como linhas de alface acabadas de plantar, couve-rábano jovem ou curgetes em início - pode colocar as caixas mesmo junto às filas. Assim, os visitantes famintos entram primeiro na “casa de atracção” antes de chegarem ao canteiro.
Como combinar este método com outras estratégias
A grande vantagem da armadilha da caixa de salada é a sua flexibilidade. Funciona tanto em pequenos jardins urbanos como em áreas maiores de auto-suficiência. E pode ser combinada com outras abordagens suaves:
- vedações anti-lesmas à volta dos canteiros mais valiosos
- canteiros elevados com paredes exteriores lisas
- plantas mais resistentes, que as lesmas tendem a evitar, a servir de “margem” em torno das variedades mais delicadas
- recolha manual dirigida, em tempo húmido, sobretudo nas zonas de borda
Quem junta vários destes “blocos” de forma inteligente costuma ver, muitas vezes logo após uma época, uma redução clara dos danos. Sem química agressiva, sem iscos tóxicos e sem o desconforto de matar animais.
Para muitas pessoas, a armadilha da caixa de salada feita em casa torna-se um pequeno símbolo de outra forma de cultivar: com atenção, com meios simples e com respeito pelos seres vivos que partilham o jardim - mesmo quando, por vezes, escolhem as folhas erradas para mastigar.
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