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Nanni Glück mostra como a satisfação real no dia a dia pode crescer

Mulher sentada no chão em sala iluminada, escrevendo num caderno com chá e ampulheta na mesa à frente.

Uma psicóloga mostra como a verdadeira satisfação pode ganhar raízes no dia a dia.

Stress no trabalho, preocupações com dinheiro, más notícias a chegar de minuto a minuto: quem quer manter a calma e sentir-se satisfeito pergunta, muitas vezes, como isso é sequer possível. A psicóloga e coach Nanni Glück defende que é possível aprender a estar mais satisfeito - sem um prémio do Euromilhões, sem férias de sonho e sem esperar que só “um dia mais tarde” tudo fique perfeito.

O que a felicidade significa na psicologia, segundo Nanni Glück

A própria língua portuguesa (tal como a alemã) ajuda a baralhar: “ter sorte” e “ser feliz” soam próximos, mas não são a mesma coisa. Por isso, muita gente fica presa à ideia de que a felicidade depende do acaso - como acertar na chave certa do Euromilhões ou receber um grande presente do destino.

Na psicologia, porém, a definição é mais sóbria: felicidade como “satisfação com a vida, tal como é sentida de forma subjectiva”. A noção por trás disto é que a felicidade não é um pico rápido de entusiasmo, mas um estado de fundo que se mantém ao longo do tempo. Não é um fogo-de-artifício; é mais um tom calmo e quente que acompanha o quotidiano.

"Nesta perspectiva, a felicidade não é uma posse, mas um estado que vivemos activamente, moldamos e cuidamos."

Nanni Glück sublinha que, quando alguém depende apenas de coincidências, acaba por se sentir facilmente à mercê do que acontece. Já quando se entende a felicidade como algo que pode ser construído, a atitude muda - sai-se da espera e passa-se à acção.

A armadilha perigosa do “se-então”

Entre pessoas insatisfeitas é comum aparecer um padrão mental muito específico. Soa mais ou menos assim:

  • “Se eu finalmente tiver o emprego certo, então vou estar satisfeito.”
  • “Se eu encontrar um parceiro, então começa a minha vida a sério.”
  • “Se eu me reformar, então finalmente vou conseguir aproveitar.”

Com esta lógica interior, a satisfação vai sendo empurrada continuamente para o futuro. O olhar fixa-se no que falta - na escassez. O problema é que, mesmo quando um desejo se concretiza, costuma surgir logo a seguir o próximo “se”. A roda continua a girar, apenas com um objectivo diferente.

Do ponto de vista psicológico, a armadilha do “se-então” leva muitas pessoas a desvalorizar o dia a dia que têm agora. Oportunidades, momentos bons e forças já existentes quase deixam de ser vistos, porque a mente está sempre ocupada com o degrau seguinte.

Que condições externas são mesmo necessárias

Ainda assim, a mensagem não é “fingir que está tudo bem”. A felicidade não funciona desligada da realidade. Nanni Glück é clara: há bases que precisam de estar asseguradas; sem elas, é difícil falar de verdadeira satisfação.

"Em primeiro lugar, são necessárias condições básicas como segurança, um tecto e um rendimento fiável."

Quem vive sob ameaça existencial, sem saber se conseguirá pagar a renda no mês seguinte, tem pouca margem mental para equilíbrio interior. Quando estas necessidades fundamentais estão, em grande medida, cobertas, o foco das perguntas muda. Passa a ser mais sobre:

  • Estou a usar os meus pontos fortes no dia a dia?
  • Sinto que consigo ter impacto em alguma coisa?
  • A minha vida parece mesmo “minha” - ou é apenas um guião de obrigações?

É precisamente aqui que começa o trabalho de desenvolver a própria satisfação.

Longe da escassez: porque a gratidão tem tanta força

Uma das alavancas centrais é o ângulo a partir do qual olhamos para a vida. Nanni Glück fala de uma mudança de perspectiva: sair da pergunta “O que é que ainda me falta?” e ir para “O que é que já existe na minha vida e é bom?”.

Para muitos, “gratidão” soa, à primeira, a cliché - quase uma frase de calendário. Mas a investigação é clara: quando alguém treina, de forma regular e consciente, a percepção do que já está presente, isso fortalece o bem-estar a longo prazo.

"Quando o foco recai sobre os recursos que já existem, muitas vezes surge a sensação: ‘Eu já tenho muito mais do que pensava - inclusive dentro de mim.’"

Isto pode ser muito concreto: uma amiga que sabe ouvir de verdade, o próprio sentido de humor, uma saúde estável, uma pequena varanda, o parque favorito ali ao lado, uma actividade na qual a pessoa floresce. No quotidiano, estas coisas passam depressa para “garantidas”. Olhar para elas de propósito altera comprovadamente o estado interior.

Como trazer mais vitalidade para o teu dia a dia

Em vez de grandes reviravoltas, Nanni Glück sugere pequenos testes práticos. O cérebro reage com especial intensidade quando estamos presentes com todos os sentidos.

Voltar ao aqui e agora através do corpo

Um estímulo sensorial forte tira a mente do ciclo de ruminação e devolve-a ao momento. Por exemplo:

  • um duche bem frio de manhã
  • caminhar descalço na relva ou no chão de um bosque
  • movimento consciente: uma caminhada rápida, uma corrida leve, exercícios de alongamento

Estes estímulos actuam imediatamente no corpo. O ritmo cardíaco muda, a respiração intensifica-se, a cabeça fica mais desperta. Muitas pessoas descrevem depois uma sensação de vitalidade - breve, mas claramente perceptível.

Quebrar rotinas e experimentar o novo

A vitalidade também aparece quando interrompemos padrões. Quem faz todos os dias exactamente o mesmo caminho para o trabalho entra, muitas vezes, em piloto automático. Bastam alterações pequenas:

  • escolher um trajecto diferente - por exemplo, seguindo a regra do jogo “duas vezes à esquerda, uma à direita”
  • sentar-se noutro lugar na cantina
  • explorar a pé um bairro desconhecido

O cérebro aprecia este tipo de desvios. Precisa de se orientar novamente, organizar estímulos e processar detalhes não familiares. Isso dá uma sensação de vida e pode melhorar o humor de forma surpreendentemente forte.

A ludicidade como treino para o cérebro

Outro componente é a ludicidade - momentos em que nada precisa de ser perfeito e o importante é experimentar. Nanni Glück destaca que, nestas fases, o cérebro mostra uma grande disponibilidade para aprender. Especialistas chamam-lhe “neuroplasticidade” - a capacidade do cérebro de se transformar e criar novas ligações.

A ludicidade pode ter várias formas:

  • começar um hobby novo sem a exigência de saber fazer bem
  • brincar com crianças, correr, pintar, construir
  • permitir-se ser mais “parvo” no quotidiano, em vez de parecer sempre controlado

"Em momentos de brincadeira, as pessoas muitas vezes superam-se - precisamente porque a pressão desaparece."

Felicidade em tempos de crise permanente - isso é sequer possível?

Muitas pessoas sentem o presente como pesado: notícias de guerra, crise climática, tensões políticas, insegurança económica. E então surge quase automaticamente a pergunta: é legítimo eu estar satisfeito quando há tanta coisa terrível a acontecer?

Nanni Glück recorre aqui a um conceito importante: tolerância à ambiguidade. Trata-se da capacidade de suportar contradições - isto é, aceitar que o bom e o assustador podem existir ao mesmo tempo.

Na prática, significa que alguém pode passar uma noite tranquila com amigos e, ainda assim, preocupar-se com o estado do mundo. Uma coisa não apaga a outra. Quem só permite o sofrimento e suprime radicalmente qualquer alegria tende a cair em exaustão ou cinismo.

"O autocuidado, sobretudo em tempos complexos, não é um luxo, mas uma condição para se manter capaz de agir."

Quando a pessoa está constantemente stressada ou dominada pelo medo, limita-se a reagir - muitas vezes de forma impulsiva, ou então deixa de reagir. Reforçar a própria satisfação não significa ignorar problemas; significa criar força interior para conseguir participar activamente na mudança.

O que exercícios concretos para o dia a dia realmente trazem

À primeira vista, muitos conselhos parecem banais: ser grato, ir caminhar, mudar rotinas, brincar. O efeito aparece quando isto se transforma em hábito. O cérebro adapta-se a experiências repetidas. Se alguém alimenta regularmente pequenos momentos de felicidade, com o tempo muda o seu “tom de fundo” interno.

Ajuda começar com passos mínimos: escrever todos os dias três coisas pelas quais se sente gratidão. Experimentar, uma vez por semana, um caminho diferente. Fazer diariamente cinco minutos de movimento que saiba bem. Estas micro-rotinas são realistas - mesmo em dias cheios com trabalho, família e responsabilidades.

Também pode ser útil definir, para si, o que significam termos como “satisfação” ou “bem-estar interior”. Para uns, é ter mais tranquilidade; para outros, mais estímulo e aventura. Quanto mais clara for a imagem pessoal, mais fácil é escolher passos ajustados.

Porque a “melhor versão de ti” não tem nada a ver com perfeição

Para Nanni Glück, o objectivo não é andar permanentemente eufórico. A imagem dela é outra: uma relação estável e amigável com a própria vida. Isso inclui dias maus, erros e dúvidas - não desaparecem, mas deixam de ter um poder esmagador.

"O mundo precisa de pessoas que estejam tão bem quanto possível na sua força - não perfeitas, mas presentes, vivas, versões de si mesmas."

Ter mais satisfação no dia a dia significa, por isso, lidar consigo de forma mais consciente, conhecer os próprios recursos e permitir-se pequenas ilhas de alegria mesmo em fases difíceis. Quem se cuida assim não só protege a sua saúde psicológica - também consegue apoiar melhor os outros e mantém-se mais capaz de co-criar soluções criativas para os problemas reais do presente.


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